A lenda do XUPAKU

A Lenda de XUPAKU (O Guardião esquecido do agreste)


Dizem que nas terras secas e espinhosas do agreste nordestino, onde a caatinga range sob o sol e a noite chega com um frio que corta os ossos, existe uma assombração que não vem dos cemitérios, mas dos banheiros das antigas casas de fazenda.


Seu nome é Xupaku.


Ninguém sabe ao certo se ele já foi homem. As vozes mais antigas contam que ele era um retirante fanático por limpeza, que vivia só em um casebre nos confins da Serra da Baixa Verde. Ele tinha pavor de doenças, de pragas, do "mau-olhado" que se pega na sujeira. Sua sina foi morrer durante uma seca terrível, sem um lenço de pano sequer para ser enrolado e enterrado com dignidade. Reza a lenda que, ao dar seu último suspiro dentro de um pequeno barracão, ele avistou um rolo de papel higiênico esquecido sobre uma lata de goiabada. Em desespero, tentou se enrolar nele para se cobrir, mas o espírito já havia partido. Dizem que a alma, confusa e obcecada por aquela última vontade, incorporou-se ao papel.


Xupaku não é uma múmia comum, feita de faixas de linho e pirâmides. Ele é alto, desengonçado como um juazeiro retorcido, com uma magreza que faz a gente lembrar da fome. Seu corpo inteiro é envolto em camadas e mais camadas de papel higiênico, da cabeça aos pés, mas o papel não é branco e limpo. Está encardido, amarronzado pelo pó da estrada, suado pelo medo que ele causa e rasgado em algumas partes, deixando ver uma pele cinzenta e ressecada por baixo. Seus olhos, quando a ventania levanta a ponta do papel que cobre seu rosto, brilham no escuro como dois caroços de avelã molhados.


Ele não assombra cemitérios. Xupaku é uma lenda do sertão agreste, das cidades de Gravatá, Bezerros e principalmente de Arcoverde, o berço do sertão, dos vilarejos perdidos entre um pé de serra e outro. Ele aparece nas horas mais suspeitas: no cair da tarde, quando a "hora do inimigo" se mistura à poeira, ou na calada da noite, quando o vento uiva nas frestas das janelas.


Seu modus operandi é cruel e, ao mesmo tempo, irônico. Xupaku espera pelos descuidados. Aqueles que, ao voltar da casa da vizinha, do trabalho na roça ou de um baile de forró, resolvem aliviar a bexiga ou o rabo atrás de um pé de mandacaru ou de uma moita de xique-xique.


É aí que ele surge.


Sem fazer barulho, ele se descola da paisagem seca. Seu corpo magro parece se esticar, ficando cada vez mais alto e fino, parecendo um poste de luz quebrado se aproximando. Quando a vítima, com as calças arriadas e os olhos fechados de alívio, finalmente percebe a presença, já é tarde. Xupaku ergue seus braços longos e esqueléticos, as pontas dos dedos cobertas de papel já desfiado, e solta um grito que não sai da garganta, mas parece vir do fundo de um poço seco:


— "EU SOU O XUPAKU!"


O grito é tão agudo e repentino que corta o silêncio da caatinga como uma peixeira. O infeliz tenta correr, mas já não adianta. Quando Xupaku alcança um descuidado, ele agarra feito um pé de jurema. Seus braços compridos se enrolam na vítima com uma força que parece vir das raízas profundas da terra seca. Os papéis que o cobrem se espalham como cipós, envolvendo o corpo do infeliz num abraço que aperta mais a cada tentativa de fuga. É um aperto que não solta, que suga o ar, que faz o peito da gente chiar igual a sanfona desafinada. Dizem que quem é pego por ele sente o cheiro de papel melado e terra molhada, mesmo em plena estiagem.


Na maioria das vezes, Xupaku não leva a vítima embora. Ele deixa o descuidado caído no chão, tremendo, com as marcas dos seus dedos finos gravadas na pele, o corpo virado de bunda pra lua e tiras de papel higiênico espalhadas pelo corpo como se fosse um susto enrolado. Mas tem noite, contam os mais velhos, que ele some com o infeliz. Some para nunca mais. Só se encontra no dia seguinte os pedaços de papel rasgados enroscados nos galhos da jurema, balançando ao vento, como quem diz: "Aqui passou Xupaku."


Acredita-se que Xupaku não mata por maldade. Ele precisa. Sua vingança contra a desatenção é a vergonha, o pavor e aquele abraço que aperta até a alma do descuidado querer saltar pela boca. Quem escapa com vida passa o resto dos dias com o coração disparado só de ouvir o barulho de um papel sendo rasgado. Muitos juram que, em noites de lua cheia, é possível ver um vulto alto e magro andando de um lado para o outro nas estradas de terra, como se estivesse eternamente procurando um rolo perdido.


Os antigos dão um conselho para quem viaja pelo agreste depois do anoitecer:

— Nunca, em hipótese alguma, pare para "fazer as necessidades" fora de casa. Se a natureza apertar, aguente. Se não aguentar, leve um rolo de papel consigo e coloque no chão antes de se abaixar. Faça um círculo ao redor de você e diga em voz alta: "Isso é meu, seu danado. Arranje o seu." Dizem que Xupaku respeita a propriedade. Ele só pega quem está desprovido, desprevenido e, acima de tudo, descuidado.


Por isso, se você um dia estiver passando pelo agreste, sentir aquele vento frio e ouvir um farfalhar estranho vindo do mato… não olhe para trás. E, pelo amor de Deus, mantenha suas calças bem abotoadas. Porque quando aquele braço comprido vem por cima do ombro, agarrando feito pé de jurema, já era. O XUPAKU TE PEGOU

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